domingo, 13 de setembro de 2009

'I Wanna Be Sick Boy'

Preparo um pico. Pego um elástico e faço um torniquete. Penso na merda que estou fazendo, na besteira que me envolvi nesses últimos anos. Primeiro era apenas cigarro: um maço a cada semana, depois a maconha, apenas quando saia com meus amigos insanos - amigos não seria a palavra que meus pais escolheriam pra eles, e sim, diabretes. Quando a verdinha parou de fazer efeito, já pulei pro pó. É mal de família, todos drogados, mas em segredo. Ninguém se atreve a levantar um dedo a respeito do vício do outro. No final, acaba sendo uma sociedade - em que cada um concede a sua parcela para a compra e depois é só sorrisos e gritos. Gritos sim, por quê não? A brisa é boa, na verdade, deixa qualquer orgasmo no chinelo. Porém, como toda a coisa boa possui o seu lado ruim, a dor acompanha o prazer. É uma troca justa, ninguém ousa concordar comigo, nem os mais viciados. Mas, a dor é um modo de pagar pelo errado, pelo pecado que o próprio ser humano criou. A heroína está pronta, fecho os olhos lentamente, nunca fui fã de agulhas - mesmo tendo um pai costureiro e uma mãe rendeira. Isso é o que chamo de aborto. A picada sempre é agonizante, quase tudo, puxo um pouco de sangue e depois pressiono com vontade - mesmo sabendo que terei a mesma sensação amanhã. Sinto-me como um deus: nada me afeta, nada me incomoda, nada me aflige. Sinto uma vontade desvairada de gritar pelos cantos da casa. Sinto o sangue correr pelas minhas veias. Sinto a liberdade de um pássaro livre no céu. Não dura muito e o pânico me envolve - vejo-me sozinho, em um canto qualquer, me sentindo aquela boneca velha em que a dona abandona depois de um certo tempo. Certa ela, não sou algo que possa trazer orgulho, sou o problema em pessoa. Mas confesso, não levo ninguém comigo. Sim, sou camarada, mesmo sendo drogado. Essa é a diferença entre o verdadeiro viciado e o que está começando: o verdadeiro não liga para os outros, enquanto o que está começando, quer levar os amigos com ele.

3 comentários:

thaís disse...

tocante e verdadeiro.
certeza ! vc tem o dom da palavra e eu te amo boooy :)

» lê B. disse...

tão real que tenho até medo! o.o

thaiis disse...

que profundo :)